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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Por que elas desejam os gays?


Por que elas desejam os gays?


Visto na Revista Época e no blog homorrealidade
Por Nathalia Ziemkiewicz

Elas são jovens, bonitas, modernas e declaradamente heterossexuais. Mas são vistas nas baladas assediando e namorando garotos homossexuais. O que explica essa curiosa atração


A publicitária Juliana Sanches, de 28 anos, esbarrou num vizinho no prédio em que morava e se apaixonou. Era o homem perfeito, na porta ao lado: lindo, cheiroso, sensível, atencioso, bem vestido e bem-sucedido. Faltava só o cavalo branco estacionado na garagem. Pouco tempo depois, ela o encontrou numa balada. Ele beijava outro cara. “Ele era o sonho de qualquer garota. Decidi que faria ele virar heterossexual”, diz. Juliana e o vizinho ficaram amigos. Por um mês, ela investiu na relação com a malícia de quem quer mais. Um dia ele cedeu, os dois se beijaram no apartamento. Namoraram três meses, mas o clima não esquentou. “Uma árvore causava nele a mesma reação que uma mulher pelada”, diz a publicitária. Ela diz que agradeceria se ele fosse ao menos bissexual.

O desafio de Juliana parece ser compartilhado por um número cada vez maior de meninas. Elas querem um gay para chamar de seu. O assédio feminino é tão frequente que muitos gays reclamam. As marias purpurinas – apelido dessas garotas que se encantam por homens muitas vezes de voz afeminada e trajes extravagantes – vão a casas noturnas voltadas para o público homossexual para se divertir. E, na falta de héteros no local, paqueram os gays. “Elas atacam mais que as bichas!”, diz o blogueiro e DJ Daniel Carvalho. “Falo na hora que comigo não rola, mas elas passam a mão e ficam em cima. Sempre dou um jeito de fugir.”

As marias purpurinas costumam até aceitar que o sexo fique fora da história. Contentam-se com beijos e passeios a dois. J., de 38 anos, gerente de uma casa noturna, namorou por quatro anos um gay. “Era um amor de idosos”, diz, rindo. “Tinha companheirismo e cuidado, mas não sexo.” A intimidade incluía beijos tórridos e banhos a dois. E só. Para garantir satisfação sexual, saíam com outros parceiros.

O fascínio feminino pelos gays é antigo. E sempre pareceu restrito à clássica amizade entre mulher hétero e homem homossexual, nutrida por interesses comuns. Nos Estados Unidos, o termo “fag hag” descreve as meninas que se encantam pelo universo gay. Nos últimos anos, as linhas que definem as fronteiras entre amizade e relacionamento amoroso parecem ter se fundido. O cinema e a televisão captaram rapidamente isso. Na novela A favorita, de 2008, a atriz Deborah Secco interpretava Céu, uma prostituta que casa de fachada com o amigo gay e se apaixona. No filme A razão do meu afeto, lançado em 1998, a personagem de Jennifer Aniston se envolve com o amigo gay. A série americana Will & Grace, exibida entre 1998 e 2006, faz comédia com um casal de ex-namorados. O homem descobre que é gay, mas a dupla continua enrolada. Em sua segunda temporada, o reality show Girls who like boys who like boys (Garotas que gostam de garotos que gostam de garotos) mostra as nuances da amizade entre os gays e suas amigas.

Parte da explicação vem da abertura recente da sociedade. Com maior liberdade para as pessoas assumirem suas orientações sexuais, as mulheres sentiram-se à vontade para experimentar outras possibilidades. E os gays, liberados para se divertir em relacionamentos convencionais. “As novas gerações não querem se prender a rótulos rígidos e definitivos”, afirma o psiquiatra Alexandre Saadeh, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mesmo porque a atração sexual e o envolvimento afetivo não cabem em definições simplórias. Nos estudos sobre sexualidade, algumas teorias sugerem que a mente humana separa sexo de afeto. Os dois podem ser totalmente distintos. “Uma pessoa pode ser homossexual e heteroafetiva”, afirma Saadeh. Um gay pode gostar de transar com homens, mas ter maior afinidade para conversar e se relacionar emocionalmente com mulheres. Assim como um homem pode ser heterossexual, mas homoafetivo. Ou seja, ele se excita com o sexo feminino e se sente mais bem compreendido pelos amigos do sexo masculino.

Mas, segundo os psiquiatras, há outras razões menos libertárias e que, ao contrário, evocam antigos estereótipos para explicar o arranjo curioso entre gays e mulheres. A primeira delas é que, em geral, os gays são fisicamente atraentes. Preocupam-se com a aparência porque precisam chamar a atenção de outros homens, seres que, por natureza, são seduzidos principalmente pelo apelo visual. Ao contrário de muitos heterossexuais, que nutrem com carinho uma barriga de cerveja e se negam a comprar roupas novas, os gays em geral são antenados com o universo da moda e cuidam do corpo. Mantêm aquela barba milimetricamente mal-feita, o cabelo impecável e o perfume recém-aplicado. Tornam-se irresistíveis ao olfato e ao olhar delas. “Já são maravilhosos e perfeitos à primeira vista”, diz Juliana.

A sensibilidade dos homens gays, que os aproxima do modo de pensar das mulheres, é o segundo motivo que explica esse tipo de envolvimento. Para os psiquiatras, os gays entendem melhor a perspectiva feminina nas conversas e ainda conseguem oferecer o ponto de vista masculino. Querem participar da vida e se mostram disponíveis até como companhia nas compras do supermercado. São cúmplices. “Sempre que íamos sair, ele ajudava a escolher minha roupa. Cozinhávamos, dividíamos segredos e dormíamos de conchinha”, diz uma estilista paulistana. Por seis meses, ela manteve um relacionamento com um homem gay. Não tinha relações sexuais com ele nem nutria expectativas de que ele mudasse sua orientação sexual. Mas o pacote beleza-e-cumplicidade oferecido pelo amigo parecia irresistível.

O desafio de converter um gay a heterossexual é outra razão que fascina muitas das marias purpurinas. É uma busca por autoafirmação. Elas se sentem valorizadas por fazer com que um gay traia a própria orientação sexual por alguns beijos com ela. “Ela se sente muito poderosa quando consegue seduzir um homossexual”, afirma Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Sexualidade da Universidade de São Paulo.

Os motivos que levam alguns gays a manter a amizade colorida não são muito diferentes dos alegados pelas mulheres. Na hora da carência emocional, eles também precisam de referências com quem possam contar. As mulheres estão dispostas a oferecer esse vínculo emocional. O estilista A.B, de 27 anos, já namorou três mulheres. Diz ter certeza de que não é bissexual. Mas, quando bebe demais e elas continuam investindo incisivamente, ele afirma que é difícil resistir. Hoje, Alexandre namora outro homem. Diz que ficar com mulheres dá muita dor de cabeça. “Elas se apaixonam de verdade.”

Visto na Revista Época e no blog homorrealidade

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"The gay from Ipanema" Por Alê Youssef




"The gay from Ipanema" Por Alê Youssef



Por Alê Youssef para a Revista TRIP, visto no blog homorrealidade

Em ilhas de liberdade como a rua Farme de Amoedo, no Rio, é possível sentir o bem-estar que só a a civilidade do respeito às diferenças pode proporcionar

Estou implantando o Studio RJ, versão carioca do Studio SP, e por isso mesmo tendo o imenso prazer de passar dias inteiros de frente para a praia de Ipanema, conhecendo a rotina e entendendo os hábitos desse bairro tão emblemático. Muito próxima ao meu novo local de trabalho está a famosa rua Farme de Amoedo, conhecida como o mais importante point gay do Rio de Janeiro e talvez de todo o Brasil.

Em uma extensa faixa de areia de Ipanema, ao redor de onde a rua desemboca na praia, é possível ver centenas de lindas bandeiras do arco-íris e sentir um pouco do bem-estar que só a civilidade do respeito às diferenças pode proporcionar. Sensação igual a essa pode-se ter andando pelas charmosas ruelas do Marais em Paris, pelas históricas calçadas do Castro em San Francisco ou pela animadíssima rua Frei Caneca em São Paulo. Às vezes tenho até certa pena daquela parcela tosca de preconceituosos da sociedade que simplesmente não pode sentir essa sensação de orgulho da própria condição humana, que esses pequenos espaços de liberdade, cabeça aberta e resistência podem proporcionar.

Ecos dessa conquista de territorialidade estão espalhados por todo o país. Nas paradas gays, que já fazem parte das agendas de todas as cidades, nas diversas mídias especializadas que refletem sobre a questão, na iniciativa de empresários que focam o trabalho no universo LGBT, na bombação da noite gay e nos diversos eventos culturais que celebram toda essa cena.

Homofobia é crime

Há mais de 15 anos acompanho de perto a discussão política sobre o tema e posso afirmar que todas as conquistas recentes são fruto da explosão comportamental de uma parcela da sociedade civil. Por meio da exposição de hábitos, rotinas e estilos de vidas, ela conseguiu vitórias sustentadas por uma espécie de bom-senso coletivo, que nasce, creio eu, justamente dessa compreensão sobre como é melhor viver em um mundo, ou andar em ruas, onde exista o respeito.

Apesar das atuações importantes de parlamentares dentro do Congresso Nacional – como Marta Suplicy, ainda como deputada e hoje como senadora, e de Jean Willys, deputado que vem se destacando com um mandato firme e participativo – , a bancada conservadora impede avanços e impõe acordos que deformam propostas legislativas e avanços importantes, como a necessária lei que criminaliza a homofobia.

Entretanto, a causa LGBT vai colecionado vitórias junto à sociedade civil e avançando da maneira que pode. A recente decisão que oficializou o casamento gay no Brasil, por exemplo, é fruto de um processo de ocupação de espaço nos corações e mentes dos brasileiros. Os ministros do Supremo Tribunal Federal que julgaram a questão com certeza têm alguma forma de contato com o universo LGBT, seja por convivência com algum familiar ou amigo, seja por adorarem o clima dos cafés do Marais.

Sei que ao lado da Farme os pitboys homofóbicos ocupam outra parte da praia e que ao virar na esquina da avenida Paulista um gay vindo da Frei Caneca pode ter que enfrentar a fúria burra de um skinhead. Há muito caminho a percorrer e muito trabalho político a fazer. Eleger mais representantes gays para os espaços de poder, para que os temas urgentes sejam aprovados sem o patrulhamento dos radicais conservadores de plantão, ainda é o caminho mais óbvio dentro da atual lógica política.

De toda forma, fica a esperança de que no mundo novo que se desenha, onde novas formas de participação definirão os rumos das políticas públicas, a sociedade irá reinventar maneiras de conduzir suas causas e levantar suas bandeiras. Nesse mundo, os direitos dos homossexuais são os mesmos direitos dos ambientalistas, que são os mesmos direitos da mulher, que são os mesmos direitos de liberdade de expressão, que são os mesmos direitos de quem luta por uma sociedade menos opressora e mais evoluída.

* ALÊ YOUSSEF, 36, é sócio do Studio SP e um dos fundadores do site Overmundo. Foi coordenador de Juventude da prefeitura de SP (2001-04). Seu e-mail é ayoussef@trip.com.br. Seu Twitter é @aleyoussef

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"A ostensiva onipresença da homofobia" Por Ivone Pita




"A ostensiva onipresença da homofobia" Por Ivone Pita


Por Ivone Pita para o POLÍTICATICA - GAY1 e no blog homorrealidade

A violência homofóbica está em todos os lugares. Em nossas próprias casas, em nossas famílias, na escola, no trabalho, na rua, pode estar em um ônibus, no cinema, no teatro, na praia ou em uma caminhada pelo calçadão. A violência homofóbica tem muitas formas e graus de expressão e não tem alvo certo. Como toda violência, torna-se descontrolada e, incontrolável, atinge qualquer um, em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. A homofobia é um monstro cruel e de muitas faces - uma criatura implacável, de muitos braços, muitas pernas e muitas cabeças – vazias ou cheias de questões mal resolvidas, de ordem sexual, psicológica e social, perpassa todas as classes, todas as instâncias, tem muitas habilidades e acha até que pode ficar invisível, passar despercebida. Não, não fica. Ela passa despercebida apenas aos mais desavisados. Para nós, seus alvos preferidos, mas não exclusivos, ela é bem chamativa, feia e assustadora.

E, sim, temos medo. Muito medo. Não um medo infundado, paranóico, inventado ou apenas suposto. Nosso medo é muito concreto e nos chega através de palavras violentas, cerceamentos, sangue, dentes arrancados, carne rasgada, órgãos esmagados e ossos quebrados, quando não com a cara da morte. Mas depois tudo se transforma em estatística. E eu quero rostos, quero vozes, quero histórias. Eu quero ver a gente que só quer amar. Quero ver as pessoas que por ousarem ser quem são, foram agredidas, apanharam e sobreviveram. Quero ver como carregam suas dores. Quero ver como andam pelo mundo, como caminham entre as gentes. Como olham para o mundo, o que pensam. Quero que nos digam por quais transformações passaram. Quero que venham a público falarem de seu enfrentamento cotidiano do medo, do rancor, do constrangimento, da vergonha, da raiva, da sensação de impotência. Todas essas coisas que ninguém quer ver, das quais ninguém quer saber.

A violência que sofremos nos chega sob tantas formas e por tanto tempo. Quando cada caso de agressão, de desrespeito, de morte, de ofensa de negação de direitos termina em apenas um apanhado de números. Quando anúncios espalhados em outdoors dizem que não deveríamos existir. Quando todos nos dizem quem podemos ou não amar. Quando por toda nossa infância, adolescência e juventude nos cobram a respeito de quem namoramos. Quando não podemos ser quem somos no trabalho. Quando temos de esconder quem somos na escola. Quando somos perseguidos na vizinhança, na família, no colégio, na faculdade. Quando procuram e propõem nossa cura. Quando não podemos beijar livremente quem amamos nas ruas. Quando andar de mãos dadas se torna uma temeridade. Quando mesmo um falar ao telefone precisa ser cercado de cuidados e disfarces. Quando nos apontam por nossas roupas, quando somos as personagens principais de piadas caricaturais, ofensivas, que ridicularizam e estigmatizam.

Em todos os modelos de vida e janelas para o mundo, seja na TV, em filmes, revistas ou qualquer outro meio, se não somos estigmatizados ou esmagados pela heteronormatividade, sofremos, no mínimo, omissão. Desde muito cedo, de lembranças imemoriais, nos ensinam que somos um erro, um pecado, uma doença, uma abominação, uma aberração, uma perversão ou quaisquer outros dos tantos nomes com os quais se esmeram em nos rotular. Por tudo isso, é surpreendente que resistamos tanto a tantas intimidações, sem nos tornarmos pessoas absolutamente inseguras, vulneráveis e de baixíssima auto-estima. É incrível superarmos tanta estigmatização e não aceitarmos viver segregados. É de uma força admirável que consigamos construir relações afetivas saudáveis, vidas profissionais de sucesso, carreiras sólidas, amizades duradouras e constituir família. É fantástico não enlouquecermos, não sucumbirmos à opressão que nos é imposta desde nossa mais tenra idade, sem data para término e por todos os dias de nossas vidas. É absolutamente admirável nosso enfrentamento diário e mais ainda por se dar entre risos, danças, amores, alegria e uma inabalável crença em um futuro melhor. Sim, termine de ler este texto, corra para o espelho, se olhe bem nos olhos, olhe bem mesmo, fixamente, e vá lá, você tem todo o direito de dizer: eu sou foda!

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domingo, 9 de outubro de 2011

"É homofobia!" diz Maria Berenice Dias


"Estereótipo vexatório em programas humorísticos é homofobia", 

diz Maria Berenice Visto no Portal Imprensa e em homorrealidade 

Inserido no Google, o nome da advogada gaúcha especializada em direito homoafetivo, Maria Berenice Dias, lidera a presença em matérias sobre a discussão homossexual. Na TV, no rádio e nos jornais e revistas, a situação não muda. Nos últimos meses, Berenice foi uma das principais fontes da imprensa para o tema, principalmente após o Supremo Tribunal Federal (STF) ter reconhecido a união homoafetiva.


Seu currículo justifica: ela foi a primeira desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, é vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito da Família (Ibdfam), preside a Comissão Especial da Diversidade Sexual da OAB, é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Rio Grande do Sul e fundou diversos projetos relacionadas à questão da diversidade sexual.


Entre tantas atividades e uma agenda apertada, Berenice conversou com o Portal IMPRENSA sobre a cobertura da mídia brasileira em relação à questão homossexual e os eventuais equívocos da cobertura. Para ela, está mais do que clara a importância de falar com jornalistas. "Eu sempre dou um jeito de não dispensar nenhuma entrevista; a imprensa é fundamental para o debate".


IMPRENSA - A quais fatores você atribui o aumento que a temática homossexual ganhou no noticiário? Maria Berenice Dias - Dentre vários fatores, acredito que o mais significativo tenha sido a mudança da própria sociedade. O distanciamento entre Estado e Igreja contribuiu muito para isso. Quando começou a ser construída de fato essa divisão, um novo conceito de família passou a ser concebido. Obviamente que isso consiste em um processo e não uma ruptura. Mais recentemente, a decisão do STF de reconhecer a União Homoafetiva também ajudou.


IMPRENSA - Algum outro? Berenice - Também tem o movimento homossexual que se organizou. Outra questão é que a homossexualidade virou um produto que vende e, por isso, entrou na mídia. Na novela, por exemplo, essa visibilidade não é só uma sensibilidade ou uma conscientização, mas um produto que vende e que está na moda.


IMPRENSA - Isso não é negativo? Berenice - Não interessa a causa, o importante é que o tema seja debatido, mesmo sendo um produto. A novela vai vender mais se tiver um punhado de gays lá dentro? Não tem problema, desde que isso transforme a sociedade e contribuía para a discussão.


IMPRENSA - Ainda existem equívocos e estereótipos na abordagem da mídia sobre o assunto? Berenice - Em muitos programas de humor temos um problema sério: o uso de estereótipos negativos e ridicularizados. Isso também é uma forma de homofobia: tratar de estereótipo vexatório em programa humorístico é homofobia, pois não correspondente ao perfil da população LGBT. Muitos desses programas atribuem ao homossexual um fenótipo afeminado e de gestos exagerados; isso é preconceito, portanto, homofobia.


IMPRENSA - Quais temas relacionados ao assunto você sente falta de ser abordado pela imprensa? Berenice - Eu tenho visto pouco comprometimento dos meios de comunicação com a normatização. Houve uma grande divulgação do julgamento do STF, mas depois disso as conseqüências estão passando despercebidas e sem a atenção que merecem. Muitos direitos começaram a ser reconhecidos e nada foi divulgado. Outra coisa é mostrar o que outros países possuem em termos de leis relacionadas à homossexualidade. Ainda falta espaço para isso.


IMPRENSA - Pelo fato de o meio jornalístico ser mais liberal contribui para a discussão? Ou isso é lenda? Berenice - Eu acredito que o jornalismo em geral assumiu um compromisso importante, pois deixou de ser só um meio de comunicação baseado em fatos, para ser também um meio de formação. Antes, os veículos só divulgavam fatos em relação à causa gay; hoje, eles parecem assumir uma responsabilidade maior, como instruir a sociedade sobre o tema.


IMPRENSA - Como foi construída essa relação que você tem com a imprensa? Berenice - Muito dos avanços que consegui ao longo da minha vida em relação ao tema devo aos meios de comunicação. Acredito que não adianta criticar ou julgar sem se aproximar. Eu fui a primeira juíza do Brasil a ter um site pessoal, criei faz 15 anos. Acredito que as causas devem ser publicadas. Meu sonho ainda é ter um programa de rádio e em breve espero ter.


IMPRENSA - Não incomoda ver que os veículos dão um grande espaço para uma notícia sobre uma agressão a um casal gay na Paulista, mas deixam de falar dos gays de periferia, que diariamente sofrem tais violências? A temática homossexual também não sofre com a diferença de classes? Berenice - Acho que vira notícia quando acontece na avenida Paulista, justamente porque é emblemático. O que acontece nas periferias de certa forma já tornou-se comum. Claro, além dos elementos, como o fato de ser o centro da cidade, uma metrópole... Mas se cada vez que acontecer na avenida Paulista e sair no "Jornal Nacional", eu acho ótimo
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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Direito de amar, crer e viver by Maria Berenice Dias



Direito de amar, crer e viver


Veja postagem no Estadão e em homorrealidade
Por Maria Berenice Dias

Todas as pessoas têm iguais direitos. Qualquer um pode conduzir sua vida da forma que melhor lhe aprouver. Pode amar quem desejar, contanto que não cause prejuízo a ninguém. Essa é a essência do princípio da liberdade.

Não é outro princípio que rege o direito de cada um acreditar no que quiser, professar qualquer credo ou religião, tanto a que admite o casamento homoafetivo como a que recuse a prática homossexual. Essas garantias, que dispõem de assento constitucional, precisam conviver de forma harmônica e respeitosa, pois é indispensável assegurar o respeito à dignidade humana, base de um Estado que se quer democrático de direito.

No entanto, em nome da liberdade de crença, se está tentando justificar posturas discriminatórias contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Ou seja, ninguém pode desrespeitar ninguém. Pelo jeito, se está olvidando do direito à liberdade, que nada mais é do que direito de respeito à diferença.

Com certeza esse é o embate que vem impedindo a criminalização da homofobia. Sob a justificativa de preservar a liberdade religiosa, se está pretendendo chancelar o direito de discriminar, de incitar o preconceito e deixar impune manifestações de ódio. Será que o direito de professar uma fé vale mais do que o direito de amar? Crer é mais importante do que viver?

Maria Berenice Dias é advogada, mestre em direito civil, especializada em direito homoafetivo

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