segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Santa ou Vadia: Maria Bueno



O mito Maria Bueno


Muitas pessoas viajam de muito longe para visitar o seu túmulo. Hoje, Maria Bueno está enterrada num túmulo azul no Cemitério Municipal.

As certezas sobre Maria Bueno, santa canonizada pelo povo, repudiada pela Igreja, se resumem nas notícias publicadas nos jornais após seu trágico assassinato na madrugada de 29 de janeiro de 1893, em Curitiba.

Segundo o Diário do Comércio de 30 de janeiro de 1893, Maria Bueno era “uma dessas pobres mulheres de vida alegre“, (um eufemismo para prostituta) e fora assassinada a navalhadas numa cena de ciúmes.

O assassinato teria sido seu amante, o anspeçado (na época, o primeiro soldado) e barbeiro do 8º Regimento de Cavalaria, Inácio José Diniz.

Nos autos do processo hoje desaparecido, o laudo do médico legista daria Maria Conceição Bueno, como cor de parda (não branca como sua imagem no túmulo), 30 anos presumíveis, de profissão lavadeira.

Nunca antes em Curitiba acontecera crime tão brutal, a cabeça quase separada do corpo e as mãos de Maria Bueno cheias de cortes pelos golpes de navalha ao tentar defender-se.

O motivo do crime teria sido ciúmes e aqui entram as duas versões sem provas, pois tanto o inquérito policial, quanto aos autos do processo não mais existem.

Na versão dos detratores de Maria Bueno, Diniz havia proibido que ela fosse ao bordel naquela noite. Ela foi e Diniz matou-a pela desobediência. Na versão dos devotos, Maria Bueno ao entregar roupa lavada foi morta ao resistir à tentativa de Diniz estrupá-la.

Diniz foi prezo, julgado e, no julgamento, absolvido. Isso está documentado pela imprensa. Em “A República” de 13 de julho de 1893, o repórter que acompanhou o julgamento protesta contra a absolvição: “um grave perigo para a sociedade e incentivou à reprodução de novos crimes“. Mas, o repórter não nos diz sob quais alegações a defesa conseguiu a absolvição. Para os retratores de Maria Bueno, a absolvição seria prova bastante de que ela não era nenhuma santinha.

Inácio José Diniz comete um latrocínio em 1894, quando Curitiba estava invadida pelas tropas federalistas. Pelo crime teria sido degolado por ordem de Gumercindo Saraiva, comandante federalista.

Para os devotos de Maria Bueno, este foi o primeiro milagre de santa: seu assassino morreu degolado como a degolou. Dizendo ter visto os autos deste processo, Euclides Bandeira cita o novo crime de Diniz em “Crônicas locais” de 1941. Mas não se tem registro de sua degola. David Carneiro, em seu “Os Fuzileiros de 1894“, confirma o fuzilamento, não a degola, dos criminosos e não cita Diniz entre eles.

O local do crime virou ponto turístico e de devoção, porém os padres da Matriz teriam se recusado a encomendar o corpo e rezar missa por ser Maria Bueno prostituta. Em 1992, em fundamentada pesquisa publicada no “Nicolau” nº 45, Ruy Wachowicz sugere que a recusa dos padres fora por ser ela praticante de outra religião. Que outra religião seria? Macumba? Nas peças “Os Fuzis de 1894 (1970), de Walmor Marcelino, e Maria Bueno” (1975), de Oracy Gemba, essa visão de Maria Bueno umbandista “pomba-gira” já fora antecipada.

Maria Bueno, santa ou prostituta? Leia a parte final da matéria.

Final

Em 1948, Sebastião Isidoro Pereira publica “Maria Bueno, onde a alma de Maria Bueno”, contribuiu com a força do seu milagre e autuou em nosso cérebro inundando-o com os pensamentos necessários.

Nesta visão psicografada, Maria Bueno seria morretense, última de uma série de 7 filhas. Mal-tratadas pelo pai alcoólatra, foi viver na casa de uma irmã casada, perto da Capela do Tamadoá, em São Luis do Purunan.
Moça bonita e muito dada, Maria Bueno provoca amores pecaminosos por parte de seu cunhado. Para evitar o pior, ela decide entrar num convento. Os padres da capela do Tamandoá mandam Maria Bueno para Curitiba, aos cuidados de um casal de velhos.

Morto o marido ela passa a ajudar a viúva nas despesas da casa, fazendo serviços para fora e fica noiva de um rapaz de Morretes.

Na madrugada de 29 de janeiro de 1893, Maria Bueno atendia uma festa numa casa perto, quando recebe um bilhete da viúva chamando-a. Apesar do adiantado da hora, volta para casa atravessando um matagal na rua Campos Gerais (Vicente Machado), entre Visconde de Nácar e Visconde do Rio Branco.

Rui Wachowicz, em sua pesquisa, afirma se essa região a zona do meretrício da época. Lá se encontrava emboscado Inácio José Diniz que enviara o bilhete falso. Diniz tenta violentá-la e, ao defender sua honra, Maria Bueno é degolada pelo assassino.

Essa versão novelesca é adotada pelos devotos e, em 1980, serve de enredo para uma telenovela de Paulo de Avelar, transmitida com sucesso pela finada TV Paraná.

Na década de 1960, Arnaldo Azevedo, ex-campeão sulamericano de tênis, cria a Irmandade Maria Bueno e resolve construir uma capela no túmulo dela. Convoca 7 virgens, 7 médiuns e 7 videntes. Através duma das virgens em transe, Maria Bueno aprova os planos da construção, reconhece como sua uma foto onde uma moça veste blusa com zipper, útil aparato que só será inventado nos anos 20. Essa foto vai orientar um menino de dez anos para esculpir a imagem de Maria Bueno. A confusão com fotos parece ser uma constante em Maria Bueno. No livro “Ruas e Histórias de Curitiba” (1989), Valério Hoerner não só publíca como autentica uma foto do julgamento de Diniz, onde réu, público e guardas aparecem com roupas e fardas dos anos 1940.

A inauguração em 1962 da capela no túmulo de Maria Bueno no Cemitério Municipal traz novo alento e novas lendas ao culto. A irmandade se encarrega não só de vender velas e recolher o dinheiro, mas também de espalhar os milagres: o mais repetido é o dos ladrões que tentam arrombar o cofre onde os devotos depositam suas doações, e não conseguindo põe fogo na capela, milagrosamente o fogo se apaga e não atinge a imagem de Maria Bueno. O dinheiro que a Irmandade recolhe só Deus sabe onde vai.

As romarias são intensas na capela de Maria Bueno, principalmente nos finados, quando há filas quilométricas. No início, os pedidos eram para casos de amor, arranjar marido, para o marido voltar a amar a mulher e deixar de beber, coisas assim.

Nos últimos anos, com a crise, a maioria dos pedidos e para arranjar emprego. Coisa que nem Maria Bueno consegue mais resolver.

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