Ele falou muito, causou na TV, no Congresso, e viu suas ideias pra lá de
reacionárias ganharem uma repercussão jamais vista em todos os seus 20 anos de
defesa da ordem e do progresso na politicagem nacional. Mas após tantas
declarações homofóbicas e racistas, defesas enfáticas da ditadura militar, da
tortura e da pena de morte, que fim teve o representante da direita brasileira
que se tornou a voz da camada mais conservadora da sociedade?
Mas antes de ver o desfecho da polêmica, vale lembrar um pouco o que
levantou a discussão que liga Bolsonaro à homofobia. As encrencas em torno de
seu nome voltaram à tona após mais de 10 anos de hiato, desde que, em 2000,
escreveu "quem procura osso é cachorro" na porta de seu escritório,
em resposta aos familiares dos desaparecidos da ditadura militar. Mas já que o
assunto do dia é gay no 'MTV, Aloka',
voltemos à pauta com a lembrança de suas declarações no programa CQC,
da rede Bandeirantes.
"E se você tivesse um filho gay?", questionou um entrevistado
do quadro 'O Povo Quer Saber'. A resposta veio curta e grossa: "Isso nem
passa pela minha cabeça, meus filhos tiveram uma boa educação, eu fui um pai
presente, então não corro esse risco.", enfatizou, ligando qualquer
tendência homossexual, única e exclusivamente, a uma má educação dos pais que
não seguem a linha da moral e dos bons costumes.
Mas toda a indignação da sociedade
progressista - ironias à parte no que fere o nome do PP, partido de Bolsonaro -
estava apenas começando. A discussão ganhou força com o projeto de lei que
planejava a distribuição do material
'Escola Sem Homofobia', apelidado de 'kit-gay' pelo deputado
conservador. O projeto era parte do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e
Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
(PNPCDH-LGBT), que reunia mais de 160 diretrizes para promover a cidadania e os
direitos humanos da comunidade LGBT.
A iniciativa logo virou alvo das
empreitadas descambadas do ex-capitão. Ele foi às escolas e casas do Rio
de Janeiro para distribuir panfletos afirmando a intenção do
MEC e de grupos LGBT’s em 'incentivar o homossexualismo' nas escolas. O
material ligava barbaridades como a pedofilia à homossexualidade, dizendo que
as crianças estavam prestes a virar presas fáceis para pedófilos e outras "atrocidades".
"Querem, na escola, transformar seu filho de 6 a 8 anos em
homossexual", diz o flyer produzido por Bolsonaro.
À época, Yone Lindgren,
vice-presidente da ABGLT, rebateu as declarações do deputado presentes na
cartilha: "Ele [Bolsonaro] está ensandecido, não respeita os mínimos
direitos humanos. Ele não tem esse poder todo de tirar os nossos direitos,
usando a religião que ele propaga para defender preconceitos. São mais de 30
anos de luta para conquistarmos a igualdade sexual", disse, em entrevista
à MTV Brasil.
Essas e outras pérolas - algumas
polêmicas da linha "O PSOL é um partido de
'pirocas' e 'viados" - renderam ao machão, além de toda a
repercussão nacional, um processo disciplinar por decoro parlamentar no
Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Mas como já se esperava, todo o
alarde e as manifestações sobre o assunto não renderam nenhuma medida efetiva
do Estado contra ele.
Mas pra quem pensa que o vilão atrapalhado das
causas gays parou nisso, é aí que mora o engano. Em uma palestra sobre
homoafetividade realizada no dia 29 de setembro para o curso de Direito da
Universidade Federal Fluminense, em Niterói, ele recebeu dos vereadores
Leonardo Giordano (PT) e Renatinho (PSOL), duas moções de repúdio aprovadas
pela Câmara Municipal da cidade, que havia reprovado suas declarações
homofóbicas.
Na ocasião, Bolsonaro conseguiu fazer com que as
vaias que já recebia crescessem ainda mais após rasgar os documentos ao meio. O
'progressista' acabou se sentindo acuado e viu o auge da reprovação pública
quando foi deixar o local e acabou impedido de entrar no táxi por centenas de
estudantes, que gritavam palavras de ordem e o chamavam por 'nazista',
'assassino' e 'torturador'. O desfecho da confusão se deu quando o deputado,
ex-capitão do Exército, teve de deixar o local dentro de uma viatura da Polícia
Militar.
KIT-GAY II
A última tentativa do deputado de causar no meio
político e na promoção dos direitos humanos no Brasil aconteceu há pouco mais
de um mês, quando começou a se armar contra a distribuição do tal 'kit-gay II',
nome dado por ele mesmo a um material que seria distribuído nas escolas,
"pior do que o primeiro", mas que, na verdade, ainda não passava de
uma diretriz que seria apresentada na 2ª Conferência Nacional da Promoção da
Cidadania e Direitos LGBT, e que ainda nem estava a caminho de votação no
Congresso.
A reação do deputado saudosista da Ditadura Militar
seria iniciar uma campanha de nome 'Faça Uma Fogueira na Sua Escola', que iria
convocar os alunos a colocarem fogo no material anti-homofobia, que, por sua
vez, nem estava em vias de aprovação oficial.
Em entrevista concedida ao Portal Band, Bolsonaro
ironizou: “Vão botar no livro a temática da família homossexual. Eles vão botar
no livro dois ‘barbudos’ e um menininho. Duas lésbicas e uma menininha. Vão,
via livro didático, contra a heteronormatividade, eles vão tirar da cabeça da
garotada que papai é aquele homem de calça e a mamãe é de saia”. Para ele, os
alunos de escolas públicas, que “já não têm condições de pagar uma escola
particular, vão ter aula de como ser homossexual é bom”.
CARICATURA
Na opinião do deputado federal Jean Wyllys (PSOL -
RJ), principal pedra no sapato de Bolsonaro, o ex-militar não representa a
resistência conservadora: "ele virou uma caricatura de um sentimento, de
uma postura que não contempla nem a direita da política nacional. Os próprios
deputados que fazem parte da bancada evangélica, nas reuniões, fazem questão de
se separar do Bolsonaro: 'A gente não concorda com o que ele faz', dizem".
Para ele, o grande obstáculo para os
avanços das causas LGBT's atualmente é o sentimento que se exaltou nas últimas
eleições, que acabou levando o debate sobre os direitos dos homossexuais e das
mulheres para o lado moralista. "O verdadeiro inimigo dos direitos da
população LGBT é esse movimento de direita que ganhou força no Brasil na ultima
campanha eleitoral, a partir do segundo turno. Esse grupo é representado pela
bancada cristã, por ruralistas, e até mesmo por alguns sindicalistas que são
abertos às causas sociais mas são insensíveis às causas feministas e dos
homossexuais", ressaltou, em entrevista à MTV
Brasil.

