Campanha de desopinionização
Numa verdadeira democracia o único princípio mais fundamental
que a liberdade de
expressão deve ser, naturalmente, a liberdade de pensamento. O
direito da outra pessoa se expressar termina onde começa o seu direito de
pensar por si mesmo.
Se você refletir bem, verá que quando expressa abertamente a
sua opinião você está tacitamente condenando a opinião da pessoa que discorda
de você. Está, na melhor das hipóteses, causando constrangimento; na pior, está
coagindo um agente livre a alterar suas próprias crenças e valores em favor de uma
opinião alheia – e o que é pior: a sua.
Nada é mais tendencioso do que uma opinião. O paradoxo da
democracia, portanto, está em que todas as vezes que emite uma opinião você
está ferindo a liberdade de pensamento de outra pessoa.
A fim de resolver esse problema, em países mais civilizados
que o nosso a liberdade de expressão já foi totalmente suprimida em favor da
liberdade de pensamento. Para que todos sejam livres para pensarem como
quiserem, ninguém deve ter a liberdade de expor a sua opinião para quem quer
que seja.
Visto que nada é mais perigoso do que uma opinião errada, e
nada é mais afrontoso à inalienável liberdade de pensamento do ser humano que
ser submetido a uma opinião contrária à sua, cabe ao governo livrar os cidadãos
desse constrangimento. Tendo em vista a sereníssima e recente legislação que
preconiza o desarmamento da população civil, considero pertinente dar-se início
a uma campanha paralela de desopinionização da sociedade brasileira.
O governo, antes de se importar com ninharias como as armas
de fogo, deveria dar prioridade a impedir a circulação desenfreada de opiniões,
argumentos e ideias – que consistem, como se sabe, na verdadeira origem de toda
discórdia e de toda violência. Antes
do desarmamento deveria vir a desopinionização.
Se tudo acontecer como prevejo, a nova lei vedará o porte de
opiniões por civis, com exceção para casos onde há ameaça à vida da pessoa.
Somente poderão andar munidos de opiniões os responsáveis pela garantia da
segurança pública, integrantes das Forças Armadas, policiais, agentes de
inteligência e agentes de segurança privada. E civis com porte concedido pela
Polícia Federal.
Quem for apanhado empunhando sua opinião sem o devido porte
será preso. O porte ilegal será crime inafiançável. Só pagará fiança quem for
pego expressando opinião de uso permitido e estando registrada em seu nome. Se
o porte ilegal for de opinião de uso restrito, além de ser crime inafiançável,
o réu não terá direito a liberdade provisória. O mesmo tratamento terá quem
praticar a propagação ilegal de ideias e o tráfico internacional de opiniões.
As opiniões apreendidas ou entregues pela população serão
destruídas pelo Comando do Exército.
Das opiniões que já expressei livremente, esta deverá
portanto ser a última. Apenas a sua liberdade de pensamento vale que eu cale a
boca.

Publicado originalmente em 15 de agosto de 2005
