sexta-feira, 1 de julho de 2011

Homofobia: do preconceito à consciência evolutiva


Postado por Altair Freitas  em 19/05/2011 EM SEU BLOG PALAVRAS AO TEMPO

Um dos debates mais candentes, mais intensos e complexos da atualidade nacional é a questão da igualdade de direitos para as pessoas homosexuais, especificamente no que diz respeito às questões relacionadas à união civil entre pessoas do mesmo sexo. Evidente que essa questão é, na verdade, a ponta do iceberg. Menos sobre direitos alusivos à união civil, o que se debate, na verdade, é a homosexualidade em si. Essa é a questão central. E, claro, a sua antítese: a homofobia. 

Tão antiga quanto a própria humanidade, a homosexualidade tornou-se crime no mundo ocidental, estigmatizada que foi pela cultura judaico-cristã tornada predominante na Europa ao longo da Idade Média, com a ascenção da igreja católica romana. Comportamento perfeitamente aceitável no período greco-romano, sob as asas do catolicismo o homosexualismo tornou-se prática hedionda, perseguida, passível da condenação "divina", e do encarceramento dos seus praticantes até pouco tempo atrás. Sob os auspícios da mais pura hipocrisia!Os resquícios do preconceito de cunho religioso, embasado em algumas passagens bíblicas, notadamente na hipotética destruição de Sodoma e Gomorra por ordens diretas de Deus, descontente com a homosexualidade reinante nas duas cidades, ecoam ainda de modo intenso nos nossos dias. Evidente que de modo muito menos intenso e opressivo do que séculos ou mesmo décadas atrás. Mas as vozes do atraso, do preconceito, da discriminação a quem quer que seja por sua orientação sexual, continuam ativas e têm respaldo em largas parcelas da população brasileira. É natural que assim seja. Mudanças de comportamento ou a aceitação em escala ampliada de comportamentos diferentes do que se considera como "normal", demandam tempo, paciência, persistência.E muito debate, muita ciência! Preconceitos só são quebrados com mobilização, ações afirmativas, estudo e compreensão científica sobre os  fenômenos e práticas discriminadas. A homosexualidade segue a mesma trilha da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Do machismo mais tacanho predominante até poucas décadas atrás, muito já se avançou em termos de direitos femininos e muito também há a avançar. Com a orientação sexual, ao que tudo indica, seguimos o mesmo caminho. Da negação/condenação que vigorava entre nós até pouco tempo atrás em termos históricos ao momento no qual homosexuais têm suas relações afetivas e estáveis reconhecidas perante a constituição, trilhamos um longo e tortuoso caminho e muita estrada ainda há a percorrer. O imporante, no fundo, é que essa rodovia está mais mais larga e melhor pavimentada. Um bom debate sobre esse assunto demanda conhecimento científico, compreender as nuances da genética, o comportamento de outros povos ao longo da história e no presente e, sobretudo, o desenvolvimento de um comportamento de tolerância e compreensão para com as diferenças; o respeito ao direito das pessoas serem felizes como elas são e não como eventualmente nós ou os outros gostaríamos que elas fossem, desde que, evidentemente, seu modo de ser não seja prejudicial a ninguém, o que não é definitivamente a questão da orientação sexual. Amar homem, mulhe ou ambos, até onde consigo enxergar, não traz absolutamente qualquer tipo de prejuizo a quem quer que seja. Até porque, em se falando de amor ou de relações puramente físicas, se há reciprocidade entre as partes, qual é mesmo o problema? Quando o relacionamento é consentido e é positivo para as partes envolvidas, onde está o "pecado"? Digo tudo isso, apenas para reforçar uma idéia, uma prática: quando nos livramos da arrogância de que tudo já sabemos ou, pior ainda, da pérfida idéia de que tudo o que gostamos e sentimos deve ser a regra para a humanidade, conseguimos tirar as viseiras que nos dificultam a visão e nos tornam limitados e cegos para uma ampla gama de questões profundamente humanas. Eu e sem dúvida dezenas e dezenas de pessoas da minha geração e que são do meu rol de amizades, fizemos essa transição entre ter uma visão pré-determinada, preconceituosa e firmada no mais rasteiro senso comum sobre a sexualidade humana. De verdades absolutas, absorvidas do senso comum mais tacanho, transitei para o que chamo de "consciência evolutiva" estudando, lendo, observando, debatendo e buscando informações e reflexões junto ao maior volume possível de instrumentos para compreender melhor a questão da sexualidade humana e dos seus complexos caminhos.Já fui tão homofóbico quanto os que hoje empunham cartazes e militam contra a liberdade sexual para orientações diferentes da heterosexualidade e inclusive em relação à própria igualdade entre homens e mulheres. Durante parte da minha vida fiz as mesmas piadas infâmes ouvidas ainda hoje nas ruas sobre a homosexualidade, sobre homens "delicados" e sobre como eles obtém prazer físico junto a outros homens. Já fui daqueles que consideravam a homosexualidade uma perversão, algo intensamente feio, repugnante e recriminável.Sou filho dos anos 60, da ditadura militar e de pai militar. Herdei  a cultura e os conceitos de um catolicismo tacanho que preponderava por aqui até pouco tempo atrás, com sua visão fechada, restritiva e impositora sobre como deve ser a sociedade e que tipo de comportamento cada um de nós deve seguir para garantir a "salvação" e o "reino dos céus". E, definitivamente, a homosexualidade era algo a ser reprimida, combatida, de preferência eliminada do convívio humano. Cresci assim, assim me tornei adulto.E é exatamente aí que entra o elemento que impulsiona a tal "consciência evolutiva", fruto do estudo, do debate, do conhecimento que se adquire lendo, ouvindo, observando. É aí que entra a ciência como elemento impulsionador da consciência. Como para  tantas outras coisas que turvavam a minha consciência, o estudo, notadamente da História, complementado por um sem número de outros instrumentos formativos e informativos, me possibilitaram realizar um enorme salto de qualidade sobre a compreensão da homosexualidade e sobre o direito de cada um buscar ser o que realmente é. Me possibilitaram também raciocinar em termos de busca pela igualdade efetivamente falando, ou seja, se a minha orientação é heterosexual e sou absolutamente feliz com ela e com ela tenho imenso prazer, porque não posso defender que quem tenha orientação diferente da minha possa exercê-la de modo livre e ser tão feliz quanto?Sempre que me defronto com homofóbicos histéricos preconizando o fim do mundo face ao avanço da liberdade e conquistas civis para homosexuais, e que vêm na defesa que faço dessa liberdade um equívoco da minha parte, costumo dizer: "não preciso passar fome para lutar ao lado dos miseráveis por um mundo sem miséria"; "não preciso ser mulher para defender a plena igualdade jurídica, econômica, política e social entre os genêros"; não preciso ser índio para lutar pelos direitos de preservação de territórios e culturas dos povos indígenas"; "não preciso ser negro para combater o racismo e a plena igualdade em todos os campos entre as diversas etnias que compõem a humanidade em qualquer lugar do mundo".Preciso ter consciência!

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