sexta-feira, 3 de junho de 2011

"O que aprendi com Bruna Surfistinha" por Raquel Pacheco

Gente serio, super curti o filme.
e depois de ver o filme comecei a procurar
videos e entrevistas da Raquel. 
Super interessante mesmo. 
Ela é super querida. 
Vida fácil? Não mesmo!
Segue a introdução do 
segundo livro dela. 
Bêj. 
s2






Introdução

É muito fácil... Basta ficar ali, abrir as pernas e o serviço se faz sozinho, não? Eu também achava que seria mais ou menos assim a tal da "vida fácil". Para minha surpresa, as coisas eram um pouco mais complicadas. Mas cada profissão, reconhecida ou não, tem sua cota de segredos e de lições. Quem nunca teve de cuidar de uma casa, por exemplo, também imagina que a vida das donas-de-casa seja uma maravilha: ficar em casa o dia inteiro, fazer as coisas quando lhe der na telha, sem chefe para torrar a paciência. Ou, então, que o cotidiano do chefe é apenas mandar, enquanto os outros é que carregam o piano. Garanto que o rosário que uma dona-de-casa ou um chefe vão desfiar, se alguém lhes perguntasse se sua vida é fácil, garantiria horas de reais lamentações e justas reivindicações. Comigo, foi a mesma coisa.

De repente, "abrir as pernas" era apenas a ponta do ice-berg das lições que eu deveria aprender a dominar. Eu tinha de ser, ao mesmo tempo, empreendedora, psicóloga, diretora de marketing, gerente de operações, secretária, gerente de produtos, confessora, office boy, gerente financeiro e muito mais — além de continuar a ser eu mesma, a Raquel. Passado o susto inicial da avalanche de ter saído de casa aos 17 anos, a menininha mimada que morava bem, tinha pai e mãe para se preocupar com o sustento, a casa, a escola, o dentista, o custo de vida, teve de dar mão à palmatória: ser apenas filha e estudante, por mais que essas "profissões" também tivessem seu quinhão de tormentas particulares, era bem mais light. Mas não lamento, mesmo.


Eu perdi algumas coisas e ganhei outras. Aprendi muito nesses pouco mais de três anos de "vida fácil". Por mais que tenha tido altos (alguns memoráveis) e baixos (muitos, como as drogas), sei que cresci como ser humano, amadureci e me sinto pronta para novos desafios. Por mais cômodo que pudesse ser continuar levando a vida da Raquel, mesmo com seus obstáculos, que muita gente conheceu ao ler O doce veneno do escorpião, foi a vida da Bruna que me ensinou lições importantes para que eu pudesse voltar a ser Raquel — porém, mais escaldada, escolada, calejada e sabendo um pouco melhor o que realmente importa na vida. Seja ela fácil ou não.

Muita gente pode me acusar de estar apenas aproveitando meus "15 minutos de fama" ao lançar este livro. Quem sou eu para julgar os que me julgam? Mas achei que seria positivo escrevê-lo. Primeiro, porque muita gente, mesmo sem ter lido O doce veneno do escorpião, partiu para o ataque, dizendo que eu estava fazendo apologia da prostituição e das drogas, incentivando, assim, meninas "desmioladas" a seguir o meu exemplo.

Desse modo, resolvi encurtar o caminho, caso alguém pense seriamente em percorrer a trilha que eu já venci, entregando o "resumão", uma "cola", o "gabarito" de todas as lições que fizeram da Raquel a Bruna, e vice-versa. Porém, a última coisa que quero — e que faria — é propaganda da vida fácil e do caminho das drogas. E muito menos ficar pregando lições... Só quem esteve lá sabe o que tudo isso significa, por mais idealizado que os outros vejam. Sem lição de moral, entende? A segunda razão está no fato de eu sentir que minhas experiências podem ajudar outras pessoas de alguma maneira, gente que nem precisa ter sido, ser ou querer ser prostituta. Se estou sendo pretensiosa? Talvez. Mas eis algo que, se for o caso, quero que alguém me ensine. Na boa.

Aqui, não vou contar a ninguém os "dez passos" para nada, nem vou dar dicas de o que fazer ou não para ter sucesso. Não é disso que se trata. Esse vai ser apenas um relato das lições que o mundo e a vida da Bruna me ensinaram até este momento. Nessa curta, mas intensa trajetória, muita gente fez questão de não me enxergar, como se a simples admissão da minha existência ou de outras tantas garotas de programa, prostitutas, ou seja lá qual o nome que você queira dar, fosse o bastante para contagiá-los com algum tipo de doença incurável. Essa foi a primeira lição: a de que todo mundo merece respeito. Eu mesma, quando pequena, via como meus pais se referiam às putas de beira de calçada da Augusta. Estar do outro lado do balcão — ou, no caso, da janela do carro, mesmo que eu nunca tenha me prostituído nas ruas — foi uma descoberta: mulheres da vida não são a escória. Mas muitas vezes a escória se serve das putas.

Nesse caminho estranho, em que se abre mão de tudo, porém, há muita gente que vai além dessa relação comercial e enxerga a pessoa que está ali. E um pouco como conhecer melhor aquele senhor mal-humorado que atende você todos os dias numa quitanda qualquer por aí. Todo mundo vive um papel na vida. O que me coube, naquele momento, era o da garota que abre as pernas em troca de dinheiro. Simples, não?

Raquel Pacheco

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...