sábado, 23 de abril de 2011

Por isso não provoque

Outro texto do Paulo Brabo.
Nossa fazia tempo que não tinha paciencia de ler.
Ou hoje estou empolgao, ou tem alguem falando comigo.

bêj.



Por isso não provoque

Divino preconceito, Homens e Mulheres

14 de Abril de 2011 by Paulo Brabo

 

Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: “está na Bíblia”. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque “domingo é dia branco”. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa noção, ele invariavelmente responde “está na Bíblia”. E ele sabe muito bem que não está.

Ou estará? Informando o seu cinismo está a noção (baseada em fatos reais) de que a Bíblia é tão vasta e multiforme que pode conter informação e diretrizes que o mais ilustrado dos interlocutores não será capaz de recordar num dado momento. Ou ainda, que o texto bíblico já foi sujeito a tantas, variadas e infundadas interpretações que pode ser usado para fundamentar qualquer postura. Especialmente a de quem está falando.
***

Azul é cor de menino e cor-de-rosa é cor de menina. Alguma dúvida?

Em 1918, um artigo do Ladies’ Home Journal explicava o que naquela época aparentemente todos sabiam: “A regra universalmente aceita é que cor-de-rosa é para os meninos e azul para as meninas. O motivo é que o cor-de-rosa, por ser uma cor mais forte, é mais própria para os meninos, enquanto o azul, que é mais delicado e mimoso, fica mais bonito para a menina.”

A historiadora Jeanne Maglaty, do Smithsonian Institute, está para publicar um livro no qual demonstra que o paradigma moderno (e portanto arbitrário) das cores que demarcam a diferença entre os sexos só ficou estabelecido a partir de 1940, e que a tendência anterior apontava precisamente na outra direção.

Por isso não provoque: é cor-de-rosa choque.

Quando as garotas começaram a usar cor-de-rosa?

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No mesmo dia em que li a nota acima fiquei sabendo da reação conservadora norte-americana a um anúncio da companhia de moda J. Crew que mostrava a diretora da empresa pintando as unhas do filho de cor-de-rosa. “Sorte minha que tenho um filho cuja cor favorita é o cor-de-rosa”, dizia a chamada abaixo da foto.

O psicólogo neoconservador Keith Ablow reagiu num artigo em que explica o seguinte:
Garotas surram garotas no Youtube. Rapazes fazem malhação e se embelezam até ficarem com abdomen de tanquinho e um penteado impecável. Embora aparentemente não haja nada de mais nisso, pode haver graves consequências quando ficar demonstrado que nenhum dos sexos permanece à vontade com a ideia de criar filhos acima de qualquer outra coisa, que nenhum dos sexos classifica manter uma família como coisa mais desejável do que fazer sexo arrebatador para sempre, e que nenhum dos sexos está motivado a proteger a nação marchando em combate contra outros homens, arriscando nisso as suas vidas.
E com isso aprendo uma preciosa lição, que o único valor humano mais sublime do que procriar é sair em resoluto combate de modo a eliminar a competição do DNA alheio.

E que é isso que nos coloca acima dos animais.

***

E que cada um coloca na sua Bíblia o que quer. Porque, embora considere o ideal da barriga de tanquinho esteticamente tão lamentável (e certamente tão arbitrário) quanto o de unhas pintadas de qualquer cor, não pude deixar de notar que Keith Ablow usa o rosto ativamente barbeado – e não preciso lembrar o leitor que ninguém deve confiar num homem sem barba. Está na Bíblia.

Ou, como acrescenta algumas vezes o meu pai: “se não está, pode colocar que é bom”.




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